A vidraça

Na vidraça no centro da porta na frente daquela casa sempre passa o sol. Lá na rua algum movimento de carros e algumas pessoas transitam o dia todo.

Nenhuma delas nunca olhou além daquela vidraça. Alguém está sentada no sofá. Ela fica a olhar por entre a vidraça como quem vê algo a mais. Ou como quem queria ver algo a mais. Ninguém sabe o que se passa na cabeça dela. Quem pode imaginar o tanto de sonhos que aquela vidraça fazia parte. Das fotos imaginadas por aquela pessoa. O olhar dela é sempre triste mesmo iluminado pela luz do sol a tardinha. Olhos gelados como vidro pela dor ao lembrar que jamais será. Dentro da cabeça dela uma chuva de visões. Visões de um futuro feliz que não, não será. Aquela vidraça não receberá marcas das mãozinhas de sua primogênita. Ela não vai agarrar a porta para se sentir firme ao ficar em pé. Ninguém que passar por aquela rua vai ver os olhinhos negros dela espiando ao abrir a vidraça. Nenhum brinquedo da menina vai ser atirado por entre as grades. No piso nenhuma pegada de pézinhos quentes. Nenhuma gota de achocolatado no chão será derramado pela filha. Na sala por detrás daquele vidro falta alguém. Alguém que ela lembra o dia todo. E ainda fica como está sentada agora. Quieta. Lembrando. Pensando. Em tudo o que não foi. Em tudo o que jamais será. Em tudo o que ela, a filha e a vidraça jamais vão presenciar…

O crescer de minha tão amada, doce e delicada Helena…

AUTHOR: Tatiana Maffini
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