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O monocaminho da superação

e o peso invisível no luto parental

No luto parental, quase sempre se espera que exista um único caminho possível: o da superação. Uma superação que pode vir mascarada por outras vestimentas — a ressignificação, a romantização – ou na ideia de que o amor deve se transformar imediatamente em força, inspiração ou propósito. É como se houvesse apenas uma rota legítima para que pais enlutados coexistam com uma ausência que atravessa cada célula do corpo e cada gesto do cotidiano.
Mas o luto não é uma linha reta. E exigir que seja, por pressão social, religiosa, institucional ou emocional, tem um preço.

Um preço alto, diário, silencioso.


O “monocaminho” da superação impõe que pais enlutados caminhem sozinhos, tentando caber em um molde que não foi feito para eles. Um molde que pede eficiência emocional, prontidão para seguir adiante e discursos positivos. E, quando não conseguem, surge a culpa, o isolamento, o sentimento de inadequação.
Nenhum pai ou mãe que teve a vida dividida entre um “antes” e um “depois” por causa da morte de um filho deveria carregar, além de tudo, o peso de não performar a superação esperada.
Essa cobrança externa, e muitas vezes interna, produz impactos estruturais profundos na vivência do luto. Drena energia psíquica, desestabiliza relações, compromete a saúde mental, fragiliza vínculos comunitários. E, quando cada mãe e cada pai precisa enfrentar o luto sem apoio coletivo, sem políticas públicas, sem espaços seguros, a conta recai sobre cada indivíduo de forma brutal.
A verdade é que o luto parental não se resolve individualmente. Não é possível pedir que pessoas atravessadas por uma das mais intensas e desafiadoras experiências humana façam sozinhas o trabalho que deveria ser de toda a sociedade: acolher, amparar, garantir dignidade emocional, reconhecer a existência do filho e da família que permanece.


Quando olhamos o luto parental apenas como uma jornada íntima, tiramos dele o que é essencialmente coletivo.

E, ao fazer isso, perpetuamos um modelo de cuidado falho que cobra resiliência, mas não oferece suporte; que exige força, mas não dá estrutura; que demanda superação, mas não reconhece a dificuldade da experiência.
O preço desse “monocaminho” é pago todos os dias, no silêncio das casas, na solidão das noites, nas lacunas familiares, nos corpos exaustos e nas mentes sobrecarregadas.
E por isso precisamos falar sobre isso: para que o luto parental não seja uma travessia solitária; para que não se espere a superação que viola o tempo interno; para que a sociedade inteira responda ao que é, talvez, a realidade mais dura que um ser humano pode enfrentar.


A conta já está cara demais para ser paga sozinha.

Projeto executado pela ONG amada Helena com recursos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio de emenda parlamentar, via Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos.

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