O luto e a conjugalidade
Embora o casal seja atingido pela mesma perda, cada pessoa a vive a partir da sua própria história, do seu corpo, dos seus recursos emocionais, da maneira como construiu o vínculo e da forma como aprendeu a expressar sofrimento. A perda de um filho atravessa a relação, mas também atravessa cada pessoa de modo particular. Quem gestou pode ter vivido esse vínculo de forma corporal, contínua e visceral; quem não gestou pode ter construído sua relação por meio da presença, da proteção, do planejamento, da imaginação do futuro e do lugar que aquele filho já ocupava na família. São experiências diferentes, mas ambas reais, legítimas e profundamente marcadas pela ausência.
Ao abordar a conjugalidade no luto, Ana destaca que diferenças na forma de sentir e manifestar a perda não significam ausência de amor, indiferença ou menor sofrimento. Uma pessoa pode precisar falar, chorar e buscar apoio; outra pode se recolher, voltar-se para ações práticas, para o trabalho ou para o silêncio. Há quem expresse o luto de forma mais emocional e visível, e há quem tente organizá-lo por meio da ação, da rotina ou da responsabilidade de sustentar o que ainda precisa funcionar. Essas formas distintas de enlutamento, quando não compreendidas, podem gerar afastamentos, cobranças e solidão dentro da própria relação, como se o jeito do outro viver a perda fosse uma prova de que ele não sente, não lembra ou não se importa.
Ao abordarmos o luto na conjugalidade, é necessário chamar a atenção para os lugares que costumam ser atribuídos a cada pessoa dentro do casal. Muitas vezes, quem está ao lado da mãe é convocado a ser suporte, presença forte, proteção e organização prática, tendo pouco espaço para reconhecer o próprio luto. Ao mesmo tempo, quem vive a perda no corpo pode enfrentar marcas físicas, alterações na autoimagem, mudanças na libido, sentimentos de culpa, raiva, fracasso ou traição do próprio corpo. Quando essas camadas não são nomeadas, o casal pode acabar sofrendo lado a lado, mas sem conseguir se encontrar na experiência.
É preciso ampliar a compreensão sobre essas diferenças e fortalecer caminhos de cuidado entre o casal. Reconhecer que não existe um único jeito certo de viver o luto pode favorecer mais respeito, parceria, intimidade e apoio mútuo. Falar sobre a perda, sobre seus impactos na vida cotidiana, no corpo, no desejo, nos papéis familiares e na forma como cada um percebe a realidade pode abrir espaço para menos julgamento e mais cuidado. Afinal, perder junto não significa sentir igual, e compreender isso pode ser fundamental para que a relação conjugal também encontre formas possíveis e dignas de atravessar a ausência.
Projeto “Raízes do amanhã”, executado pela ONG amada Helena com recursos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio de emenda parlamentar, via Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos.






