Campanha 2026
Há filhos que vivem 12 semanas no ventre, filhos que vivem 17 dias nos braços, filhos que atravessam meses de tratamento, filhos que chegam pela adoção, pelo cuidado ou pela convivência construída, filhos que crescem, estudam, trabalham, casam e tem filhos. Nenhum deles deixa de ser filho quando morre. Ser filho não é definido pelo tempo de vida, pela forma como chegou à família, pela idade que tinha, pelo diagnóstico, pela causa da morte ou pela quantidade de lembranças materiais que deixou.
Ser filho é ocupar um lugar. É ter nome, história, pertencimento e relação. A morte interrompe a presença física, mas não apaga esse lugar.

A campanha anual 2026 da amada Helena, intitulada “A vida sem um filho”, nasce para ampliar a forma como a sociedade compreende o luto parental: não como um tema restrito ao momento da morte, não como uma experiência privada que deve ser vivida em silêncio e não como algo que termina quando a rotina parece voltar ao normal. A morte de um filho interrompe uma forma de convivência, mas também reorganiza a família, a identidade parental, os vínculos e a maneira como o tempo passa a ser vivido. Pesquisas qualitativas com pais enlutados mostram que essa experiência é descrita como um rompimento profundo, que envolve a perda de projetos futuros, mudanças na forma de se reconhecer como mãe ou pai, sentimentos de culpa, diferenças entre mães e pais na expressão do luto e uma ausência que passa a fazer parte da organização familiar.

Depois da morte de um filho, a rotina continua existindo. O trabalho chama, a casa precisa funcionar, as contas chegam, as mensagens se acumulam, outros filhos podem precisar de cuidado, há mercado, escola, consultas, documentos, refeições, compromissos e dias comuns. Mas a rotina já não é a mesma, porque a ausência passa a atravessar o cotidiano de modos diferentes: pode aparecer no aniversário, no Dia das Mães, no Dia dos Pais, no Natal, na volta às aulas, em uma comida, em uma música, em uma fotografia ou em uma pergunta simples, como quando alguém pergunta quantos filhos aquela pessoa tem. Pode aparecer diante de uma idade que chegaria e não chegou, no silêncio de uma cadeira, de um quarto, de uma voz, de uma risada ou de uma presença esperada na cena familiar.
É por isso que tantos pais dizem: “meu filho teria 5 anos”, “teria 18”, “teria 30”. Essa frase não é uma tentativa de negar a morte, não escolher sofrer imaginando um filho que não vai mais voltar. É uma forma de reconhecer que aquele filho continua tendo lugar na história da família. O tempo passa, mas a existência dele não deixa de fazer parte da vida familiar.

Durante muito tempo, a sociedade tentou enquadrar o luto parental em prazos, etapas e expectativas de retorno, como se, passado o parto, a internação, o funeral, a despedida ou os primeiros meses, a família devesse se reorganizar sem mencionar o filho. Como se lembrar fosse sinal de fragilidade, como se falar fosse permanecer preso ao passado, como se a continuidade do vínculo impedisse a continuidade da vida.
As pesquisas não sustentam essa simplificação. Um estudo longitudinal com mais de 400 pais, acompanhados ao longo de 18 anos, identificou que, mesmo décadas depois da morte de um filho, pais e mães ainda podiam apresentar menor bem-estar, mais sintomas depressivos e mais impactos na saúde do que pais que não viveram essa experiência. O estudo também observou que a reorganização estava mais associada à construção de propósito do que simplesmente ao tempo decorrido desde a morte. Outros estudos apontam que modelos tradicionais de luto, que sugerem uma adaptação em poucos meses, são insuficientes para compreender o luto parental. Muitos pais continuam pensando no filho diariamente anos depois. Em diferentes relatos, a ausência não desaparece: ela muda de forma, de intensidade e de lugar na rotina.Isso não significa que mães e pais não vivam. Significa que vivem com a presença da ausência. A parentalidade permanece, ainda que a convivência tenha sido interrompida; o vínculo permanece, ainda que o cuidado cotidiano precise mudar de forma; a história permanece, ainda que parte da sociedade não saiba como reconhecê-la.

A amada Helena defende que mães e pais não precisam colocar seus filhos no passado para continuar vivendo. A memória não impede a vida, a continuidade do vínculo não atrapalha a caminhada e falar sobre um filho que morreu também pode ser uma forma de cuidado, pertencimento e reconhecimento.
Humanizar o luto parental exige compreender essa permanência.
A Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, instituída pela Lei Federal nº 15.139/2025, representa um avanço importante no Brasil ao reconhecer a necessidade de acolhimento às famílias que enfrentam a morte de um filho durante a gestação, no parto ou nos primeiros dias de vida, prever atendimento psicológico no Sistema Único de Saúde e alterar a legislação de registros públicos para permitir o registro da criança nascida morta com o nome escolhido pelos pais. Esse reconhecimento importa porque afirma, no campo público, que a existência de um filho não deve ser apagada, além de orientar serviços, profissionais e instituições a adotarem práticas mais respeitosas diante da morte de um bebê.
Mas humanizar não se resume a criar protocolos. Protocolos são necessários, mas não bastam. Humanizar é mudar a forma como a sociedade reconhece essa experiência e compreender que filhos que morrem não são apenas diagnóstico, estatística, evento clínico ou tragédia familiar. São sujeitos. Têm nome, história, pertencimento e lugar. Continuam sendo filhos, mesmo quando a presença física já não é possível. Por isso, espaços de escuta, grupos de apoio, acompanhamento profissional e redes de cuidado têm papel fundamental. Estudos sobre grupos de apoio com pais enlutados mostram que esses espaços ajudam a reduzir o isolamento, fortalecer o sentimento de pertencimento, sustentar memórias e permitir que as famílias compartilhem experiências sem precisar justificar a permanência do vínculo.
Para muitos pais, dizer o nome do filho em voz alta não é voltar ao passado. É reconhecer que ele continua fazendo parte da história. Para mães, pais e famílias enlutadas, não existe prazo para o luto parental. Ter dias difíceis muitos anos depois não significa voltar ao início, falhar ou não conseguir viver; significa que aquele filho segue tendo lugar. Falar sobre ele, dizer seu nome, construir uma narrativa sobre sua história, buscar apoio psicológico, participar de grupos de partilha ou estar perto de pessoas que respeitam essa vivência pode ser uma forma de cuidado.
Encontrar um propósito, dedicar-se a uma causa, ajudar outras pessoas ou transformar parte da experiência em ação pode contribuir para a reorganização da vida, mas isso não deve ser uma obrigação. Cada pessoa tem seu tempo, sua forma, sua rede possível e seus próprios limites. Nenhuma mãe e nenhum pai precisa provar que está “seguindo em frente”. Cuidar de si também importa, porque o luto parental pode atravessar a saúde física, emocional, familiar e social. Ter acompanhamento profissional e uma rede de apoio pode ajudar a sustentar os dias mais difíceis com mais amparo.
Para quem convive com mães e pais enlutados, reconhecer que a ausência do filho é permanente é um dos primeiros gestos de responsabilidade. Não espere que a família deixe de falar, lembrar ou incluir esse filho em sua história. Quando a rotina externa parece ter voltado ao normal, a experiência familiar pode continuar reorganizada pela ausência. Esteja presente de forma concreta: cozinhar, ajudar com a casa, cuidar de irmãos, acompanhar em consultas, lembrar datas importantes, enviar uma mensagem ou simplesmente permanecer por perto pode fazer diferença. Fale do filho e diga seu nome, porque muitos pais temem que seus filhos sejam esquecidos e ouvir outras pessoas reconhecerem sua existência pode ser profundamente significativo.
Também é importante respeitar as diferenças. Mães e pais podem expressar o luto de formas distintas, em tempos diferentes e com necessidades diferentes. Evite julgamentos e frases como “você precisa ser forte”, “pelo menos você tem outros filhos” ou “agora precisa seguir em frente”. Incentive o acesso a cuidados profissionais e a espaços de apoio, mas sem pressionar. Acolher também é respeitar o tempo, os limites e a forma como cada família consegue viver sua própria história.
Falar sobre a vida sem um filho é reconhecer que a morte interrompe a convivência, mas não apaga o vínculo, o pertencimento e a história. É compreender que uma família enlutada não precisa esconder seus filhos para caber no mundo. É reconhecer que o silêncio social também pode isolar, que informação, cuidado e linguagem importam, e que o acolhimento não termina quando a cerimônia acaba, quando a licença termina, quando o quarto muda ou quando os meses passam.

A campanha “A vida sem um filho” é um convite para que a sociedade aprenda a olhar com mais responsabilidade para o luto parental. Uma vivência que não se reduz à morte, porque também fala de vínculo; não se reduz à ausência, porque também fala de pertencimento; não se reduz ao passado, porque também atravessa o presente. A rotina segue, a ausência também, o vínculo também. Esse filho, como sujeito, também.
A amada Helena reconhece mães, pais e famílias que vivem a morte de filhos em qualquer fase da vida: na gestação, no parto, nos primeiros dias, na infância, na adolescência ou na vida adulta. Cada tempo, cada história e cada filho importam. Uma sociedade verdadeiramente humana não pergunta apenas como um filho morreu. Também aprende a reconhecer como ele continua existindo para seus pais.
A amada Helena agradece à SetDoor pela parceriaa e confiança e à Cássia Miguel pela mediação que tornou possível a realização de mais uma campanha de conscientização sobre luto parental..
Referências
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BRASIL. Lei nº 15.139, de 23 de maio de 2025. Institui a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental e altera a Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, para dispor sobre o registro de criança nascida morta. Diário Oficial da União, 26 maio 2025.
HOEY, Julie. How to help a friend who lost a child. Mums At The Table. Fonte complementar de linguagem, exemplos de apoio social e relatos sobre a permanência do luto parental ao longo do tempo.






