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Era apenas o corpo dela. Mas aquele corpo era o que trazia as informações do DNA do Giovane e do meu.

A primeira vez que deixei Helena no cemitério, não parecia ser o lugar dela: um lugar quieto, morto, sem luz, cheio de pessoas que ela nunca conheceu. Demorei pelo menos uma década para aceitar, em minha mente, que aquele era o “lugar” dela — embora ela, de fato, nunca tivesse realmente estado ali.

Ao chegarmos ao corredor onde estava sua lápide, há 13 anos, sabíamos que ela “estaria” ali. Mas hoje foi diferente. Hoje, precisei desconstruir, mental e fisicamente, aquele lugar da Helena, ver esse lugar sem lugar… Precisei retirar tudo o que identificava sua lápide: as flores, a moedinha de um euro que, carinhosamente, foi dada por uma de minhas irmãs, que a chamava de “olhinhos de euro”. Retirei as borboletas que havíamos colocado tão cuidadosamente, como pais que decoram a parede do quarto de uma filha para trazer cor.

Aquele não é mais o “lugar” da Helena, assim como, um dia, nossa casa também não pôde mais ser.

Quando saímos para que retirassem o caixão e o levassem ao crematório, ao olharmos para o corredor, vimos o espaço vazio de onde a lápide havia sido retirada. Era uma representação física do vazio deixado em nossas vidas sem a presença de Helena. Ali se iniciou o processo mental e emocional de criar um espaço para Helena, sem Helena. Precisaremos construir um mundo onde não há mais um local de referência, onde o corpo que compartilhava nosso DNA não existe mais.

Na verdade, não era sobre a existência ou a essência de Helena. Era apenas o corpo dela. Mas aquele corpo era o que trazia as informações do DNA do Giovane e do meu. Era tudo o que, de forma concreta, nos fazia pais dela. De certa forma, ao meu ver, cremar seu corpo hoje foi cremar o que de fato nos ligava como família: nossa linhagem de DNA.

Foi menos doloroso do que vê-la lutar para viver, vê-la sofrer sem que pudéssemos fazer nada. Hoje foi apenas levar nosso corpo até onde estava o corpo dela. Resolver. Dar um destino a algo que jamais foi — nem será — usado.

Ainda assim, foi — e é — imensamente doloroso.

Mais uma etapa, entre tantas, que vivemos – viveremos – em nosso luto.

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