Dra. Neusa Agne
Quando uma mulher engravida, o cérebro começa a mudar muito antes do parto.
Áreas ligadas ao vínculo, à proteção e ao cuidado ficam mais ativas, o bebê passa a ocupar um lugar central no funcionamento mental da mãe, e isso não é apenas uma ideia ou uma expectativa: o cérebro já o reconhece como parte fundamental da própria vida. A identidade começa a se reorganizar em torno daquela existência, o corpo e a mente se alinham para proteger e acolher. O bebê passa a ocupar um lugar central na vida psíquica, a identidade se transforma: não é apenas alguém que está esperando um filho, é alguém que já está se tornando mãe. O cérebro cria expectativas, imagina cenas futuras, antecipa cheiros, toques, sons. O filho passa a existir como presença interna antes mesmo de nascer.
Quando esse bebê morre, o impacto não é apenas emocional. É neurológico. Há um rompimento profundo na organização do cérebro, que entra em estado de choque. sensação de queda, de irrealidade, de anestesia. O raciocínio falha e decisões simples se tornam difíceis; isso acontece porque o cérebro ativa mecanismos automáticos de proteção diante de um trauma extremo. Ele tenta impedir um colapso maior e ativa mecanismos automáticos de sobrevivência. Não é escolha, não é fraqueza, é biologia. Diante de uma ameaça extrema — e a perda de um filho é vivida pelo organismo como uma ameaça absoluta — o sistema nervoso reage tentando proteger a integridade psíquica. O cérebro materno tenta entender o que não faz sentido biológico, pois o bebê deveria ter nascido com vida, ele teria uma vida inteira pela frente e jamais deveria morrer antes da mãe. Essa inversão rompe uma ordem profunda.
Deste rompimento, surge uma busca constante, pensamentos se repetem, perguntas voltam, muitas que nunca terão respostas definitivas, imagens que se impõem.
As pessoas que amamos ficam registradas no cérebro como conexões profundas e duradouras, portanto o filho não é apenas lembrança; ele está integrado às redes neurais que organizam identidade, pertencimento e sentido de vida. Por isso, quando ocorre a morte, o cérebro não consegue simplesmente “aceitar” a ausência. Parte dele continua funcionando como se aquela presença ainda devesse estar ali e surge, então, uma sensação concreta de vazio, como se algo tivesse sido arrancado de dentro. E, de certa forma, foi.
Os sistemas químicos do cérebro entram em desequilíbrio, substâncias responsáveis por motivação, energia, prazer e estabilidade emocional diminuem ou oscilam intensamente.
A tristeza pode se tornar avassaladora.
A ansiedade aumenta.
O sono se altera.
O apetite muda.
A memória falha.
A concentração fica prejudicada.
O cérebro busca o filho, como se ainda pudesse encontrá-lo, e essa busca não é simbólica apenas; ela é neurobiológica.
Além disso, o corpo permanece em estado de alerta: hormônios do estresse circulam em níveis elevados, o coração pode acelerar com facilidade, a imunidade pode diminuir, a sensação de perigo constante se instala, como se algo terrível pudesse acontecer novamente a qualquer momento.
O organismo inteiro reage à perda.
Existe também um movimento interno de oscilação e em alguns momentos, o luto invade com força total, como uma onda que desorganiza tudo. Em outros, o cérebro precisa se afastar temporariamente para sobreviver. Pequenas distrações, tarefas simples, conversas cotidianas funcionam como pausas biológicas necessárias. Essa alternância não significa esquecimento ou indiferença.
Significa que o sistema nervoso precisa respirar para não colapsar.
O mais profundo é que o cérebro materno continua sendo um cérebro de mãe, as áreas ligadas ao apego permanecem ativas, a vigilância emocional continua e há uma sensação persistente de que o filho deveria estar ali.
Mesmo na ausência física, a representação interna permanece viva.
O vínculo não desaparece porque o corpo do bebê deixou de existir, ele continua inscrito na arquitetura neural.
Com o tempo, algumas funções podem se reorganizar.
A concentração pode melhorar.
A rotina pode voltar a existir.
Mas o cérebro não retorna ao estado anterior.
A experiência da perda modifica permanentemente circuitos ligados ao amor, à memória e ao significado.
O luto não é apenas um sentimento; é uma transformação biológica e existencial.
Perder um bebê não é apenas viver uma tristeza profunda. É atravessar uma reorganização do próprio cérebro. A mente precisa aprender a conviver com alguém que continua existindo internamente, mesmo não estando mais presente no mundo externo.
O amor permanece registrado.
E é justamente porque o amor permanece que a ausência se faz sentir.
Projeto executado pela ONG amada Helena com recursos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio de emenda parlamentar, via Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos







